luis fernando verissimo
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Entrevistas

Entrevistador: Hélio Lemos

Data da entrevista: desconhecida

Origem: website ToDuro.com (extinto)


Hélio Lemos - Na época da Ditadura havia mais opinião, mais crítica social. Hoje,na imprensa, você e mais uns poucos opinam, mas de um modo geral há, como você diz, um "pensamento único" . O que houve com a imprensa no Brasil?

Veríssimo - É, eu acho que o que houve foi este paradoxo.... na época da ditadura havia a chamada imprensa alternativa, os nanicos, como eram chamados, que não podiam dizer tudo, mas pelo menos podiam sugerir muita coisa... que a Grande Imprensa não podia dizer por causa da censura, e no caso havia uma censura mesmo ostensiva... então estes jornais, chamados alternativos, conseguiam dizer alguma coisa, sugerir alguma coisa nas entrelinhas.... e com a "abertura democrática" , vamos dizer assim, esta imprensa alternativa, não teve mais sentido, quer dizer desapareceu... nós tinhamos vários jornais naquela época, não era só o Pasquim... mas também o "Objetivo" e vários outros... tinha um chamado inclusive "Alternativa" mesmo. Enfim eram vários jornais alternativos que desapareceram e eu acho que foi substituida uma ditadura por outra, antes tinhamos uma ditadura ostensiva, militar e hoje temos uma ditadura, econômica, de interesses.... a Grande Imprensa ficou sozinha, não tem mais a alternativa da Pequena Imprensa. e a Grande Imprensa tem seus interesses empresariais... suas agendas empresariais que se identificam com a do governo, o "pensamento único". Eu acho que o que aconteceu foi isto. Este paradoxo, quando havia uma censura ostensiva havia mais alternativas, hoje que existe uma "democracia formal"... liberdade de expressão , não se pode dizer que não existe, mas existe este outro tipo... não vamos chamar de censura... mas de dominação do pensamento da Grande Imprensa ... da Grande Empresa através da Grande Imprensa.

Lemos - Eu sou leitor assíduo do Jornal do Brasil e lia "O Globo" apenas aos domingos... e "fui obrigado" a comprar o "O Globo" diariamente, quando você se transferiu de um jornal para o outro.(Risos) Aliás eu acho que isto aconteceu com muita gente... na época eu até estranhei..... "Veríssimo no O Globo" .Mas é claro que existe a questão que você acrescenta muita "oxigenação" ao jornal e por outro lado pode atingir um número muito maior de leitores.. que no JB, que caiu muito. Aquela sua primeira crônica em inglês , foi muita engraçada, parecia que você estava mesmo "testando o terreno" para saber se era sólida mesmo a liberdade que você teria... acho que ninguém esperava que você fosse escrever em Inglês....

Veríssimo - Na verdade, eu nunca tive e nem tenho nenhum tipo de restrição...eles mesmo me convidaram para escrever no "O Globo" e nunca me impuseram nenhum tipo de restrição e até agora nunca tive nenhum problema. Sempre pude escrever o que eu queria...Mas é claro que é um jornal que tem esta história conservadora ... uma história inclusive de cumplicidade com muita coisa que aconteceu no Brasil...mas o fato de eles terem me convidado, sabendo das minhas opiniões, das minhas posições, eu acho que é extremamente positivo.... Até que ponto eu estou servindo para dar uma idéia de pluralismo, de opinião.. aí a gente já não pode controlar isto... de um jeito ou de outro servindo a uma estratégia deles...mas tudo bem .. tenho espaço para dar meu palpite e dou, né? E até agora não tive problema nenhum... E é uma coisa interessante porque o JB mesmo naquela época já era um jornal bastante conservador,né? Inclusive porque não tinha independência nenhuma, dependia do governo para sobreviver...não era um jornal tão independente.. Mas fica aquela história... os dois jornais.. o JB tem está história de ser bem, mais simpático que o Globo, por várias razões.. e ainda vive da reputação conquistada antes...

Lemos - O que eu mais destaco nas tuas crônicas diárias é a tua liberdade: você tanto pode escrever sobre um aspecto social ou político importante ou sobre alguma "besteira" no melhor sentido da palavra... esta tua capacidade de transformar qualquer assunto num texto interessante é genial... Esse valor que você parece cultivar de não ter "compromisso" com nenhum tipo de postura...a não ser com a sua independência. Ler sua crônica diária é sempre uma agradável surpresa....

Veríssimo - Manter sempre uma independência de pensamento é importante.... Acho também que o primeiro compromisso de quem escreve diariamente para o grande público é o de ser uma leitura atraente, independente do assunto que você está tratando... então eu acho que você pode tratar de qualquer assunto de uma maneira leve, ou atraente.... Também isto depende muito da disposição do momento, às vezes a gente não está afim de ser sério... e apela para a bobagem...

Lemos - Esta coisa do humor nas tuas crônicas é muito legal.. Eu lembro de uma que você escreveu sobre "o fato de não ter sobre o que escrever" e a dificuldade de encher aquele espaço, e você vai explicando para o leitor a quantidade de linhas que ainda faltam para preencher o espaço da coluna.. Muita engraçada, genial mesmo....

Veríssimo - (Risos) Eu uso também, às vezes, muito diálogo, porque o diálogo ocupa muito espaço.. É uma forma de ter uma certa cumplicidade com o leitor.. convidar o leitor para entrar na brincadeira, né? Não ser uma coisa assim pomposa, superior...

Lemos - E tocar? É um prazer?

Veríssimo - É, este é um prazer antigo. Eu aprendi a tocar o saxafone , há muitos anos, eu era adolescente ainda... Depois passei muitos anos sem tocar... e agora voltei e é puro prazer.... não tenho pretensão de ser músico, sou um músico muito limitado... mas é bom a gente brincar de ser músico....

Lemos - Tem improviso?

Veríssimo - Tem, tem improvisos... a gente brinca de Jazz.. de jazista.. e é muito bom, principalmente com este pessoal aí.. Lá em Porto Alegre eu toco numa banda que é séria, uma banda de Jazz séria. Aqui com os Carusos, então é uma coisa mais na linha deles , mas é muito bom, muito divertido, o pessoal é muito bom.... mas a minha participação no show é muito pequena, tem o Aroeira também que toca saxofone, então nós fazemos um naipe de solos...é muito divertido....

Lemos - Conheço alguns economistas respeitáveis que acham que o atual governo FHC é o governo mais negativo, mas nocivo para a população brasileira e para a nação brasileira que o país já teve em toda a sua história. Você concorda com isto?

Veríssimo - Eu acho que sim ... a gente não pode duvidar da intenção das pessoas, são todos bem intencionados....ninguém tem prazer em criar miséria, ou exclusão e tudo mais... Mas eu acho que escolheram um modelo de Brasil que é um modelo comprovadamente excludente, que aflora a exclusão social , que depende da exclusão social.... não só produz a exclusão social mas depende para existir da exclusão social... e eu acho que é um modelo suicida. Estão entregando o Brasil... A gente às vezes se vê compelido a usar um pouco daquela retórica antiga da esquerda, contra os Estados Unidos, anti-imperialismo, que é uma coisa meio antiga, mais se aplica. Estamos ainda prisioneiros de um modelo que só serve a um lado, só serve aos Estados Unidos, só serve ao capitalismo financeiro... eu acho que é uma coisa suicida que eu não sei onde vai dar... neste sentido é um dos piores governos que nós já tivemos... Como eu acho o Fernando Henrique uma figura, por vários motivos respeitável, sobre o passado dele também , acho ele bem intencionado, mas acho que ele está fazendo um governo ruinoso... que não se sabe onde vai dar...

Lemos - Voltando para a música e o ato de escrever... Existe também o improviso quando você se lança numa crônica sem saber como vai acabar... como na música você domina um instrumento e "uma linguagem" , e tem segurança para "ir sem saber ao certo aonde vai chegar", você concorda com isto?

Veríssimo - É, o Jazz é isto... um tema e depois variações sobre o tema o improviso sobre o tema ... uma crônica às vezes é isto também a gente tem um assunto, um tema e passa a desenvolver o tema, né? É uma analogia um pouco forçada, , nem sempre correta.. mas às vezes é isto mesmo...

Lemos - Eu acho que você escreve ..... o seu domínio da lingua, das palavras é uma musicalidade, no modo de escrever... Eu acho que quando a gente diz algo muito bem dito, tem que ter ritmo.... não vou fazer uma tese sobre isto, mas que existe isto no que você escreve, existe.... eu consigo identificar que quando você quer "bater feio" quando você quer "acrescentar poder as palavras" ali tem ritmo, a própria maneira de construir diálogo, é ritmo. linguagem é ritmo...

Veríssimo - Não é uma coisa muito pensada... mas é bom ouvir isto... para o ego faz muito bem....

Lemos - Você nunca pensou nisto?

Veríssimo - Não, na verdade, não eu sempre tive a preocupação de escrever com clareza, de ser uma leitura atraente, uma leitura clara , de desenvolver o que a gente quer dizer com clareza e eu acho que entra uma certa preocupação com o valor de cada palavra....

Lemos - Já li crônicas suas em que você destaca o valor da imagens e outras onde você "despreza" o valor das palavras....como se a linguagem das letras servisse mais a uma "dissimulação" do que a uma comunicação...fala um pouco disto....

Veríssimo - Eu acho que você , na verdade já disse tudo. A linguagem é uma forma de sortilégio. É uma forma de dissimulação, às vezes, é uma coisa sempre construída, você constroe uma frase , você constroe um pensamento.... eu acho que em toda a construção como tem a parte da consciência, que é uma coisa pensada, tem uma parte da dissimulação também, é uma coisa de "falsificação da realidade"... Às vezes é uma forma da gente compreender a realidade, às vezes é uma forma da gente se distanciar da realidade...justamente por este aspecto de sortilégio, da coisa meio mágica...mas acho que você falou muito melhor do que eu....(risos..)

Lemos - Opinião com clareza, ética, integridade são coisas raras na mídia no Brasil... Você teve uma história de vida em que você morou fora, voltou pra cá , pode ver "de dentro", pode ver "de fora" , também o convívio com seu pai, ( Érico Veríssimo) o fato de você ter se decidido por uma profissão bem tarde (30 anos) .... você acha que tudo isto se reflete no que você é hoje....

Veríssimo - Eu acho que sim, esta coisa do distanciamento, o fato de eu ter vivido muito tempo nos Estados Unidos, justamente naquela fase que o adolescente está se definindo politicamente eu estava nos Estados Unidos... quer dizer .. não tive nenhum tipo de participação... de ativismo político que eu teria provavelmente se eu tivesse ficado no Brasil... tive um outro tipo de envolvimento com política e vendo o Brasil de longe... também foi outra coisa...isto funciona também com a linguagem a gente de certa maneira vê a lingua como um estrangeiro... geralmente quem tem uma formação em outra lingua tem esta vantagem... uma vantagem de ver o Portugues meio de fora assim...pra saber manejar melhor.. Mas eu acho que é isto, este distanciamento é uma coisa importante...

Lemos - E para encerrar...utopias, sonhos... tem ainda?

Veríssimo - Não....eu acho que até uma certa desilusão com as utopias é uma coisa boa porque a gente acaba simplificando a coisa, né? Qual é a utopia que a gente tem? Enfim.... uma sociedade...até para usar um lugar-comum, uma sociedade justa, que ninguém morra de fome...é uma simplificação... Mas eu acho que a morte das outras utopias.... o socialismo e tudo mais ..de certa maneira favorece a esta utopia simples... da felicidade possível, da justiça possível, da igualdade possível, já que a ideal não é possivel, pelo menos a possível já é uma utopia..

Lemos - Muito obrigado...pela entrevista Verísssimo.

Veríssimo - Eu é que agradeço.

/lfv é um site dedicado ao escritor, cartunista e músico Luis Fernando Verissimo.


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