luis fernando verissimo
Um guia sobre o escritor Luis Fernando Verissimo

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Entrevistas

A entrevista abaixo foi concedida por LFV a estudantes do Curso de Comunicação da PUC-RS.

Entrevistadores: Leonardo Carvalho, Moacir Zandonai Junior e Nestor Tipa Junior.

Data da entrevista: desconhecida

Origem: desconhecida


Carvalho - Como começou o seu contato com a literatura? O primeiro contato que a gente tem com a literatura, ainda mais você que é filho do Érico Veríssimo, obviamente, tinha uma biblioteca. Ele vivia sempre te dando livro, ganhava um livro para criança, vai crescendo e vai aprendendo a escrever. Como foram esses primeiros passos?

Veríssimo - Bom, o primeiro contato, como tu já falaste o óbvio, por ser filho de escritor, vivendo numa casa em que o livro era uma coisa importante. Além de ter livros, ter biblioteca, tudo era uma parte importante da nossa vida, da vida do pai. Ele tinha amigos no campo literário. Então na minha infância, de certa maneira, vivi nesse ambiente em que o livro era uma coisa muito importante. Mas apesar de tudo isso, demorei um pouco para começar a ler livros. Eu era um apaixonado por quadrinhos. Então o pai se preocupou por achar que eu estava muito nos quadrinhos. Mas naturalmente passei dos quadrinhos para os livros de aventura, para o livro infantil. Aí então comecei a explorar mais a literatura mesmo. E o fato de estar numa casa que haviam livros de certa maneira despertou a minha curiosidade, até porque eu li, quando tinha doze anos, um livro do Freud que tinha na biblioteca do pai. Obviamente não entendi a metade, mas pelo menos o fato de o livro estar escondido ali me levou para esse caminho.

Carvalho - Isso deve ter ajudado com as conquistas amorosas também. Chegava para a menininha assim: "Olha, o Freud disse tal coisa..." (Risos). Dizem, eu não sei se é verdade, que essa coisa da literatura é genética. Você começou na biblioteca do seu pai. Será que tem alguma relação? Apesar que você seguiu um caminho diferente do Érico. Ele era um romancista e você foi para a crônica. Essa divisão foi uma coisa natural ou...

Veríssimo - Até essa questão da genética, eu achava pelo fato de eu ser filho de escritor que eu não ia ser escritor. Não tinha nenhuma idéia de que eu ia ser escritor, até porque eu comecei tarde. Comecei a escrever com trinta anos justamente porque eu entrei no jornalismo. Comecei na Zero Hora, e naquela época não precisava ter diploma. Então quando eu comecei a trabalhar em jornal é que eu descobri que eu sabia escrever. Tinha lido muito, sempre fui um leitor voraz, mas nunca tinha escrito nada. A não ser algumas traduções que eu tinha feito do inglês, só quando eu comecei no jornalismo. Mas se há algo genético, acho que não.

Zandonai - No Rio, antes de tu voltares, tu chegastes a trabalhar com publicidade...

Veríssimo - Não, no Rio não. Quando eu voltei para Porto Alegre foi quando eu comecei a trabalhar na MPM Propaganda, que não existe mais.

Carvalho - E como é que foi este trabalho? Você mexia com a parte de texto ou com arte?

Veríssimo - Ilustrações. Até quando eu fui para o Rio procurar emprego, fui na área de arte. Como eu disse, não tinha nenhuma idéia de que eu seria escritor, de que eu sabia que sabia escrever. Então procurei trabalho. Como eu tinha jeito para desenho, procurei na área de arte. Não conseguia, acabei indo para outro caminho. Mas quando voltei para Porto Alegre, que eu comecei a trabalhar na Zero Hora e em seguida comecei a trabalhar com propaganda na MPM, mas na área de redação. Desisti da arte.

Carvalho - Aquela propaganda de uísque não foi sua, a do Chivas...

Veríssimo - (Risos) Não, não...

Carvalho - Aquela foi excelente. Diz-se que o processo de escrever é que nem o homem quando está apaixonado: Ele tem várias fases. Até li um poema no ônibus que bateu bem com isso. Era assim: "No começo os amores são Vinícius, depois eles são Drummond e no final eles são Bandeira". Como é que foi esse processo de amadurecimento?

Veríssimo - Não tenho muito o que descrever daquela época. Não sei bem qual era o meu estilo na época. O que me surpreende muito as vezes, quando eu vejo coisas que eu tinha escrito naquela época, é que eu escrevia muito. Com o tempo, o texto foi ficando mais conciso. A única diferença que eu noto é que eu escrevia muito mais naquela época.

Carvalho - Até pelos livros a gente nota isso. Por exemplo: Ed Mort, Analista de Bagé,... As crônicas são maiores, são mais consistentes, entram mais citações literárias. Hoje em dia são mais reduzidas.

Veríssimo - É, isso é uma coisa que vem com o tempo, não sei se é uma vantagem. Como se diz, mais com menos palavras.

Carvalho - Porquê crônica? Isso foi natural também? Deixa eu dar um exemplo pessoal, porque desde que eu comecei a ler, lia muito aquela séria, a coleção vaga-lume, aqueles livros de aventura. Aí eu comecei a escrever e só saiam crônicas. Então foi natural?

Veríssimo - Foi uma coisa que aconteceu por acaso, porque eu comecei a escrever no jornal. E a literatura que se faz em jornal é, obviamente, a crônica, que é uma mistura de jornalismo e literatura. Então foi por isso, não por escolha minha, foi quando me deram um espaço assinado para fazer. O cronista principal do jornal na época era o Sérgio Jockman. Quando ele saiu do jornal, fui convidado para ficar no lugar dele. E o que ele fazia era crônica. E, na verdade, nunca fiz outra coisa. Não foi uma escolha minha, assim como uma coisa que apareceu. Quando voltei do Rio, casado, já com uma filha nascida, não tinha nada para fazer, então me ofereceram essa vaga no jornal.

Zandonai - Nessa entrevista agora que saiu contigo na revista "Época", antes do carnaval, tu comentas que começaste a escrever exatamente na época da ditadura. Então foi uma época que tu aprendeste a dizer muito não dizendo nada. Como é que era o cotidiano na redação do jornal naquela época?

Veríssimo - No meu caso tem o fato de ser a Zero Hora, que naquela época era um jornal muito precário, não tinha nada a ver com a potência que é hoje. Então a gente nunca sabia quando ia sair o pagamento, o salário. Era um lugar apertado que a gente trabalhava lá no Centro. Então, além das dificuldades da época, a própria repressão, a censura e tudo mais. Ainda tinha esse papo de estar trabalhando num jornal que era precário e difícil, que tinha poucos recursos. Naquela época quem dominava o jornalismo aqui era a Caldas Júnior, com o Correio do Povo, a Folha da Tarde,...

Carvalho - E como era o clima entre os jornalistas? Tinha uma coisa que era interessante de se notar nos teus textos: Quando a gente lê com doze anos de idade era uma coisa. Depois a gente amadurece e começa a ver um pouco além. A gente vê nos personagens traços da época em que se vivia, da repressão. E aí entra aquela história de dizer as coisas meio sem dizer. Eu estou dando minha opinião, mas sem alardear muito. Como era entre os jornalistas essa discussão, essa coisa de colocar nos textos...

Veríssimo - A gente vivia sempre testando os limites. Quando o próprio jornal fazia a auto - censura e dizia: "Olha, isso não pode sair porque vai dar galho", a gente sabia que tinha tocado no limite. Não podia passar dali. Então a gente tentava dizer as coisas até um certo ponto. Era curioso porque sempre se pode dizer muito mais através do desenho do que pelo texto. Por alguma razão para o desenho eles não davam muita importância. Os limites do permitido eram mais amplos.

Carvalho - Tanto que tem um livro do Ziraldo com desenhos daquela época, os desenhos são muito fortes.

Veríssimo - É, o pessoal do Pasquim o Henfil... É que o desenho tem essa conotação de coisa de criança, de brincadeira, então eles (a censura) não davam tanta importância. Agora, em texto era bem controlado. Aqui no Sul havia mais uma auto - censura. Os jornais se controlavam, sabiam mais ou menos o que podiam publicar ou não.

Zandonai - Diferente do Rio de Janeiro, onde havia uma imprensa alternativa forte.

Veríssimo - É. Em São Paulo, por exemplo, tinha o censor que ia sempre ao jornal, trabalhava dentro da redação. Acho que aqui nunca houve isso. Mas é isso, a gente vivia testando aonde podia ir e tentando muitas vezes dizer as coisas de maneira velada, disfarçada.

Carvalho - Como era o relacionamento de vocês (jornalistas) com as outras expressões culturais? Vocês estavam ligados, sabiam o que estava acontecendo, por dentro da situação que o país estava vivendo? Nas outras expressões artísticas vocês também notavam a vontade de mudar a situação seja na música, na literatura propriamente dita?

Tipa - O próprio teatro...

Carvalho - O próprio teatro. Como era essa discussão entre vocês? Se falavam entre si, ou procuravam até divulgar esse tipo de coisa, sai um disco do Chico Buarque com meia dúzia de letras fortes e procuravam divulgar?

Veríssimo - É, a gente sempre tinha muito contato, na medida do possível, com o que estava acontecendo no Rio e em São Paulo. Mas também, mesmo a gente trabalhando na imprensa, nós não sabíamos de muita coisa que estava acontecendo. Viemos a saber depois. Coisa de guerrilha, por exemplo. Sabíamos de companheiros nossos que eram presos e torturados, mas a extensão da coisa a gente só ficou sabendo depois. Mas este contato (com a produção cultural) existia sim. Tinha um pessoal mais de esquerda que fazia conspiração mesmo. Nós nos reuníamos, era uma forma da gente se informar.

Zandonai - Hoje a ditadura já acabou, o AI-5 já é história, mas conversando com jornalistas que trabalham em veículos de grande circulação a gente vê que a censura interna é um pouco diferente. Muitas vezes o jornalista barra uma matéria quando toca em algum anunciante ou em algum interesse. Será que esse tipo de coisa, o próprio grande negócio que a mídia de massa virou não acaba sendo uma censura ainda mais eficiente que a do AI-5, com censores nas redações?

Veríssimo - É, isso é uma questão curiosa, paradoxal, não? Na época da ditadura havia a grande imprensa, que era controlada, mas havia a imprensa alternativa,, que também era censurada, mas podia dizer algumas coisas. Hoje não existe mais essa via alternativa, só a grande imprensa. Não existe mais o jornal alternativo.

Zandonai - Hoje em dia o que a gente tem de maior expressão seria a Caros Amigos. Até há poucos anos atrás teve a Atenção, uma revista com matérias ótimas mas que acabou não durando.

Veríssimo - É, hoje não tem a imprensa alternativa como antes e a grande imprensa tem seus interesses empresariais. Os grandes jornais pertencem a grandes empresas que têm seus interesses. A gente fala do "pensamento único" na imprensa brasileira, que é toda a favor de um certo tipo de economia, aberta, mercado, e não tem alternativa para isso, não?

Zandonai - Corte de gastos, principalmente na área social.

Veríssimo - É, não existe a censura ostensiva. Por exemplo, eu posso escrever o que eu quiser, pelo menos a minha experiência nos últimos anos tem sido essa, apesar de eu estar escrevendo até há pouco no Jornal do Brasil - agora eu passei para o Globo - o Jornal do Brasil pertence a uma empresa que tem seus interesses e eu sempre escrevi com toda a liberdade, mas a posição do jornal segue o "pensamento único".

/lfv é um site dedicado ao escritor, cartunista e músico Luis Fernando Verissimo.


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